14 de março de 2026

Ultravision Video Arcade System

De todos os vaporwares da década de 1980 o Ultravision Video Arcade System, com absoluta certeza, foi o maior deles. Na edição de novembro de 1982 da revista Electronic Games, a empresa Ultravision fez a primeira menção ao seu projeto de console/computador/televisão, inserindo uma pequena figura com o desenho de seu futuro videogame em uma propaganda de jogos para o Atari VCS. Em volta dessa pequena figura estava escrito “Ultravision Video Arcade System”, “Coming Soon”. O bastante para já causar um frisson nos gamers da época. Em janeiro de 1983, na mesma Eletronic Games, a propaganda da Ultravision simplesmente nada comenta sobre o novo console. Mas em fevereiro de 1983 a revista Eletronic Games exibe uma propaganda de duas páginas falando exclusivamente sobre o “Ultravision Video Arcade System”, incluindo fotos de um jogo e o slogan “It’s an Arcade System. It’s a Color TV. It’s a Computer. It’s Ultravision!” ou, em português, “É um Sistema de Arcade. É uma TV Colorida. É um Computador. É Ultravision.”.

Primeira aparição do Ultravision em uma propaganda de 1982. Revista  Electronic Games de Novembro de 1982, pg. 93.

Na Consumer Eletronic Show – CES do verão de 1983 a Ultravision Inc., uma pequena fabricante de jogos sediada em Miami, Flórida, anunciou oficialmente seu novo console, com o pomposo slogan “É um COMPUTADOR, É uma TV COLORIDA, É um ARCADE.”, o Ultravision Video Arcade System. Na realidade só fez o anúncio pois não havia nem mesmo um protótipo vazio exposto na feira. Mas tudo que a Ultravision anunciou e colocou em suas propagandas indicava que o novo console traria em um único equipamento o melhor do mundo dos videogames e dos computadores. Ele viria com todos os recursos avançados que qualquer jogador dos anos 1980 desejava. Uma saída para fone de ouvido, tela de TV colorida de 9″ integrada com sintonizador para assistir seus programas preferidos quando não estivesse jogando, opções de alimentação AC/DC para ligá-lo em qualquer lugar que tivesse pelo menos uma bateria de carro e compatibilidade total com o Atari 2600 e o Colecovision por meio de um módulo externo. Também contaria com “absurdos” 64 KB de memória RAM, um microprocessador de última geração — o qual nunca foi mencionado qual seria — e um teclado opcional. O console ainda teria entrada de cartuchos para jogos de qualidade avançada e que teriam “efeitos visuais dinâmicos”, incluindo gráficos tridimensionais e zoom. E se tudo isso ainda não fosse suficiente, uma das propagandas indicou que o Ultravision ainda seria compatível com os periféricos e softwares do Apple II e de softwares para IBM PC, dando-lhe logo na largada uma biblioteca gigantesca de jogos. Era bom demais para ser verdade.

E era mesmo.

Após o término da CES as informações sobre o Ultravision tornaram-se mais escassas apesar de todo o furor criado. O tempo passou e nada do Ultravision. Mesmo com preço anunciado de US$ 999, nada de novo surgiu sobre o sistema. Nenhuma especificação técnica detalhada foi divulgada além das contidas nos anúncios, que pouco informavam. Estava claro que a coisa toda não podia ser real. Aqui segue uma pequena lista em analiso os pontos que a Ultravision alardeava como diferenciais do seu console e indicavam que tudo o que fora anunciado era exagerado:

– Atualmente já é um trabalho imenso, que exige hardware e software razoavelmente poderosos para realizar a integração e emulação de outras plataformas, como algo assim seria factível em 1983? Computadores poderosos, com processadores de múltiplos cores, com muita memória, sistemas de armazenamento de alta capacidade e de alta performance tem grandes dificuldades de, por exemplo, rodar programas feitos para o sistema operacional Windows em um sistema operacional Linux através de um software que simula o hardware e/ou as chamadas do sistema operacional original. Se emular um videogame mais antigo em um hardware e software completamente diferente do originalmente construído consome muita memória e processamento de um computador high end atual, então imagine fazer isso em 1983 com grandes limitações na capacidade dos microprocessadores e necessitando de muita memória, que, apesar da queda de preços, ainda representava boa parte do custo do hardware. E o material de divulgação informava que Ultravision teria 64 KB de memória. Bastante para 1983, mas pouco para o que se propunha a fazer.

– Se o console poderia criar gráficos tão avançados quanto os anunciados, porque na foto do anúncio de 1983 a imagem é uma foto melhorada do jogo para Atari 2600 “Condor Atack”? E os gráficos do incrível computador são um simples gráfico de barras?

– Gráficos tridimensionais e efeitos de zoom exigiam um tipo de hardware encontrado somente em caras máquinas arcades e, ouso dizer, que praticamente nenhum computador em 1983 era capaz de tal façanha sem exigir todo o poder de seu hardware, ainda que contasse com um programador incrivelmente habilidoso para extrair todo esse poder. Para dar uma ideia, o tal efeito de zoom, ou scaling, real só apareceu em um console de videogame na década de 1990 quando a Nintendo lançou o Super Famicom. Gráficos tridimensionais, então, só ficaram possíveis no final da década de 1980 e início da década de 1990 com o avanço de microprocessadores e a introdução de muito mais memória nos computadores. Em videogames os gráficos tridimensionais só vieram para ficar com o lançamento do Sony PlayStation em 1994.

– Nenhuma outra grande fabricante de computadores da época, como a Apple, a IBM, a Commodore ou a Atari ousou anunciar algo tão complexo, já dando uma ideia de quão avançado esse hardware do Ultravision precisaria ser.

Propaganda de duas páginas na Revista Electronic Games deixa todos com água na boca. Revista Electronic Games de Fevereiro de 1983, pg. 58 e 59.
Folder “detalhando” o sistema. Ultravision, Inc..
Folder do Ultravision que mostrava os periféricos que estariam disponíveis. Ultravision, Inc..

Ou seja, o Ultravision era uma ideia fantástica e desejada por muitos, mas que estava pelo menos uns 10 anos a frente de seu tempo. Também é um fato bem conhecido que a Ultravision era uma empresa pequena e que não tinha o dinheiro para financiar o desenvolvimento do seu próprio videogame… Ainda mais um videogame tão poderoso e complexo. Ela dependeria da atração de investidores para concretizar seu projeto. Investidores esses que, se é que houve algum interessado, desapareceram diante do crash dos videogames que já se desenhava na metade de 1983 e atingiu a indústria de videogames norte-americana em cheio no ano de 1984. Claro que a indústria de computadores prosperou ainda mais com a queda de preços, mas, ter uma etiqueta indicando que o aparelho era um videogame era sinônimo de fracasso comercial em 1984 e isso definitivamente não ajudou no projeto do Ultravision.

Folder do Ultravision que chegou a ter seu preço divulgado. Preço abaixo de muitos computadores da época para um sistema tão poderoso. Ultravision, Inc..

Ninguém tem certeza se algum protótipo do Ultravision Computer Video System sequer chegou a ser construído. Existem fotos em alguns anúncios com as parcas especificações e lista de jogos que seriam lançados junto com o console, dando a entender que pelo menos uma unidade, provavelmente não funcional, chegou a ser montada, mas é muito provável que o Ultravision nunca tenha passado desse estágio sendo somente um sonho dos seus idealizadores e deixando toda a comunidade gamer com água na boca ou, melhor dizendo, com vapor na boca.

Resumo

Nome Oficial:

Ultravision Video Arcade System

Fabricante:

Ultravision, Inc.

Data de Lançamento:

Previsto para Agosto de 1983

Descontinuado:

Regiões de Lançamento:

Jogos Lançados Oficialmente:

Preço no Lançamento:

Preço Atualizado 2025:

Unidades Vendidas Oficialmente:

Nunca lançado

América do Norte

0 Jogos

Estimado em US$999

US$3.117,00

Nunca lançado.

Ficha Técnica

CPU:

Desconhecido. Ao que tudo indica não existia nenhum processador capaz das façanhas anunciadas pela Ultravision em 1983, pelo menos não comercialmente ou com um preço razoável para esse tipo de equipamento.

Velocidade da CPU:

Memória:

Desconhecido

64 KB de RAM

Vídeo:

Desconhecido. Cabe aqui a mesma explicação sobre o processador.

Resolução de Tela:

Desconhecido. Pelo material divulgado teria que ser capaz de gerar mais de 256 cores e mostrá-las simultaneamente.

Cores:

Monocromático. Usa sobreposição com película de plástico colorido para simular cores.

Áudio:

Desconhecido

Controles:

Teclado e joystick destacável.

Mídia dos Jogos:

Cartuchos, disquetes e fitas cassete

Saída de Vídeo:

Monitor integrado ao equipamento