14 de março de 2026

Vectrex

No início da década de 1980 Jay Smith era proprietário da empresa Smith Engineering, uma empresa individual que ele usava para patentear seus próprios designs, projetos ou invenções.

Bom, o que provavelmente você não sabe é que Jay Smith foi o engenheiro que criou o primeiro videogame portátil programável, o Microvision, lançado pela Milton Bradley. O que é ainda mais interessante é que, segundo consta, Smith trabalhava para a Mattel quando concebeu o que viria a ser o Microvision.

Bem, provavelmente você continue sem entender porque eu estou falando disso, porém é importante que se entenda que a ideia de um dos consoles de videogames mais incríveis e mais incompreendidos da história não surgiu do nada, mas, assim como as outras diversas histórias que conto nesse livro, foram sendo concebidas ao longo de anos de pesquisa e muita tentativa e erro.

Em meados de 1981 a ainda chamada Smith Engineering, que viria a ser a Western Technologies em agosto de 1982, adquiriu um lote de pequenas telas CRT em uma loja de liquidantes. Essas pequenas telas de raios catódicos eram provavelmente usadas em painéis de aeronaves e tinham cerca de uma polegada. Os engenheiros Mike Purvis e John Ross passaram a estudar possibilidades de como utilizar essas pequenas e, principalmente, baratas telas em algum produto de consumo. John Ross teve então seu momento eureca. Ele teve a ideia de criar um videogame portátil usando essas pequenas telas CRT, mas não como os videogames já faziam aos montes. A ideia de Ross era usar gráficos vetoriais em vez de bitmaps. Ross, então levou seu conceito a Smith que ficou impressionado com a ideia, logo buscando um plano para criar esse pequeno dispositivo já batizado de Mini Arcade.

O uso de gráficos vetoriais era o que havia de mais avançado e impressionante nos jogos de videogame existentes nos arcades em 1981 como Space Wars, Star Castle, Rip Off, Armor Attack, Solar Quest e Star Hawk. Nenhum console de mesa e muito menos um portátil era capaz de tal façanha. Os gráficos vetoriais têm um conceito de exibição na tela bem diferente do que usavam Atari VCS e Intellivision, por exemplo. Esses consoles, assim como praticamente todos da época usavam o que é chamado de exibição raster. O modo raster é o modo como uma TV CRT monta as imagens na tela. Nesse modo o canhão de elétrons, que é o que exibe as imagens, varre a tela inteira horizontalmente de 30 a 60 vezes por segundo desenhando pequenos pontos chamados pixels. No sistema vetorial, o vetor é desenhado usando apenas as coordenadas X e Y sem que a tela inteira precise ser varrida e inteiramente atualizada. Por causa disso, eles requerem um hardware bem mais poderoso. O lado positivo é que as linhas e os detalhes desenhados são muito mais limpos e nítidos do que no modo raster. Isso possibilita excelentes efeitos 3D em wireframe. O lado negativo é que os gráficos vetoriais coloridos se tornam mais complicados e gráficos sólidos são quase impossíveis ou exigem um hardware que basicamente não existia, pelo menos não em produtos de consumo em grande escala, em 1981. Com Smith encabeçando o projeto eles desenvolveram o primeiro protótipo e na primavera de 1981 a empresa de brinquedos Kenner que, entre muitas outras coisas, foi responsável pela linha de brinquedos de Action-figure do filme Star Wars, se interessou pelo sistema. A Kenner, porém, achava que a tela de 1 polegada era muito pequena e pediu para que fosse alterado para uma de 5 polegadas preto e branco. Entretanto, por motivos até hoje obscuros, a Kenner abandonou o projeto em julho de 1981. De qualquer forma esse não foi o fim do projeto. Em setembro de 1981 a empresa General Consumer Electronics (GCE) decidiu encampar o projeto após seu presidente, Greg Krakauer, ver o conceito e os primeiros protótipos funcionando. Porém a GCE não tinha interesse em lançar um videogame portátil, afinal, a mina de ouro eram os consoles de mesa dos quais a GCE queria conseguir um naco desse mercado e, para isso, o projeto da Smith Engineering era um achado. O conceito de gráficos vetoriais estava muito além de qualquer console existente no mercado naquela época.

O Vectrex com seu controle com analógico, quatro botões e tela monocromática integrada. Foto Evan Amos. Reprodução Autorizada.

Em outubro de 1981 eles começaram a trabalhar no projeto do console da GCE. Assim, o Mini Arcade, que a essa altura nem mesmo poderia usar esse nome, uma vez que outro produto já havia sido registrado e lançado, passou por diversas alterações. Primeiramente a questão do console ter uma tela foi mantido, pois seria um grande apelo de vendas onde o console não tomaria o tempo da televisão da família. O tamanho da tela, porém, foi alterado para uma tela monocromática de 9 polegadas. John Ross foi responsável pelo projeto do hardware, Gerry Karr e John Hall construíram o sistema de controle que tinha o codinome de “Executive” e é o software básico ou BIOS do sistema. O design do console ficou a cargo de Walter Nakano e Colin Vowles. Ambos criaram a aparência única do sistema 2 anos antes de o computador Macintosh ser lançado com uma aparência semelhante. No início de 1982 decidiu-se pela substituição do processador. Inicialmente o console deveria usar um MOS 6502, como uma enormidade de consoles e computadores usavam, mas os projetistas o acharam lento demais para a montagem dos gráficos. A decisão recaiu sobre o poderoso microprocessador Motorola 68A09, o 6509.

Parte traseira do Vectrex. Foto Evan Amos. Reprodução Autorizada

Durante seu projeto o console passou por diversos nomes. Iniciou como Mini Arcade, foi chamado de HP-3000 e Vector-X. Chegou a ser batizado como Vectron e teve a tela de abertura com esse nome projetada por um dos programadores do projeto: Bill Hawkins. Hawkins conta que o nome Vectrex surgiu em uma reunião de brainstorming na GCE quando ele sugeriu o nome Vector-X. Ninguém gostou do nome e após mais discussões chegaram ao veredito de VECTREX. Um nome que tinha tudo a ver com os gráficos vetoriais usados pelo console. Os gráficos vetoriais eram muito nítidos na tela de 9″ do Vectrex e permitiam efeitos gráficos que nenhum console de videogame de sua geração, e várias gerações posteriores, não conseguiam sequer imaginar em fazer, como escala e rotação. O problema é que o Vectrex era monocromático, um efeito colateral dos gráficos vetoriais. Fazer o Vectrex colorido teria exigido um hardware muitas vezes mais poderoso e caro do que o que estava sendo projetado. Para resolver essa questão das cores a GCE e a Western lançaram mão de uma ideia já utilizada no primeiro console de videogames lançado, o Odyssey. Os jogos vinham acompanhados de um quadro, com um filme colorido para ser colocado na frente da tela do Vectrex dando um efeito bem interessante nos jogos.

Em junho de 1982, na CES de verão, o Vectrex Arcade System foi apresentado ao público e já com preço de US$ 199 definido. O Vectrex chegou às lojas dos Estados Unidos em outubro de 1982 e, além da tela de 9″, vinha com um controle com alavanca analógica, muito elogiado até hoje, com quatro botões de ação, como nos arcades mais quentes daquele momento. O console também vinha com um jogo em sua memória interna, o Mine Storm, que é muito parecido, senão quase uma cópia, do jogo Asteroids da Atari.

O console vendeu muito bem no natal de 1982. Diante do sucesso do Vectrex, a Milton Bradley tomou a decisão de também entrar no mercado de consoles de videogame e para isso comprou a GCE em março de 1983. Com a força de distribuição da Milton Bradley o Vectrex ganhou o mundo, sendo lançado nos mercados Europeu e Japonês ainda em 1983.

Mas o movimento da Milton Bradley foi feito diante do último suspiro do mercado de videogames norte-americano. No verão de 1983 os primeiros efeitos do que viria a ser conhecido como o Crash dos Videogames começaram a aparecer. As vendas de consoles, de todas as fabricantes, caíram abruptamente quando os consumidores, entre outras coisas, começaram a optar pelos microcomputadores que chegavam a custar menos que um console. Para tentar segurar as vendas a Milton Bradley agiu como as demais fabricantes abaixando agressivamente os preços do Vectrex e de seus jogos. O console que chegou a ser vendido a US$ 199 em dezembro de 1982 podia ser encontrado a US$ 100 ou até menos em novembro de 1983, mal pagando seu custo de produção.

Jogo Pole Position, com o overlay que o acompanhava, colocado sobre a tela do Vectrex e que dava um efeito muito interessante no jogo. Foto Ricardo Cividanes da Silva

Em março de 1984 a gigante dos brinquedos Hasbro comprou a cambaleante Milton Bradley e começou o processo de descontinuar o Vectrex. Em março, o Vectrex já não era mais vendido na Europa e Japão e foi sumindo aos poucos durante o ano nos Estados Unidos, sendo oficialmente descontinuado em dezembro de 1984. A Milton Bradley chegou a projetar uma versão em cores do Vectrex, mas, diante da quebra do mercado, esse console nunca saiu da fase de planejamento. No final, os direitos do Vectrex retornaram para as mãos da Smith Engineering ou Western Technologies, como era seu nome agora.

Em 1988 a Smith/Western chegou a ressuscitar o Vectrex com a ideia de lançar uma versão portátil do console, mas o preço estimado em US$ 100 e a iminente chegada do Game Boy da Nintendo, agora a força dominante do mercado de videogames no mundo, enterrou o Vectrex definitivamente. No início da década de 1990 a Western Technologies tornou o Vectrex e seus jogos como domínio público. Isso só fez aumentar o interesse pelo sistema que tem uma enorme quantidade de seguidores fanáticos que produzem novos jogos até hoje. Inclusive, o Vectrex é um sistema que, reconhecidamente, fez mais sucesso após seu fim do que quando era fabricado, com uma comunidade homebrew extremamente atuante.

Resumo

Nome Oficial:

Vectrex Arcade System

Fabricante:

GCE-General Consumer Electronics, Inc.(até 1983)

Milton Bradley Company (1983 e 1984)

Data de Lançamento:

Outubro de 1982

Descontinuado:

Regiões de Lançamento:

Jogos Lançados Oficialmente:

Preço no Lançamento:

Preço Atualizado 2025:

Unidades Vendidas Oficialmente:

Dezembro de 1984

América do Norte, Europa e Japão

28 Jogos

US$ 199

US$ 650

Desconhecido, mas estima-se que não passou de 50 mil.

Ficha Técnica

CPU:

Velocidade da CPU:

Memória:

Motorola 68A09

1,6 MHz

1 KB de RAM

Vídeo:

Não tem processador de vídeo

Resolução de Tela:

Monitor de 9 polegadas para produção de gráficos vetoriais

Cores:

Monocromático. Usa sobreposição com película de plástico colorido para simular cores.

Áudio:

General Instrument AY-3-8912 com alto-falante interno de 3″.

Controles:

2 controles com joysticks (o console vinha somente com um controle), 4 botões de ação, conectados ao console por cabo e conector db9 permitindo que o controle fosse removido.

Mídia dos Jogos:

Cartucho com ROM de até 32 KB

Saída de Vídeo:

Sinal de vídeo RF modulado