Você que tem paciência de ler esses meus ensaios e que também gosta de reviver videogames antigos por meio de emuladores, já parou para pensar de onde surgiram os arquivos de jogos que você carrega no emulador?
Você revive aquele jogo das Tartarugas Ninja exatamente como você se lembrava quando conectava aquele cartucho no seu velho console de guerra, porém nunca se perguntou como ele foi parar em um arquivinho que roda no seu computador?
Ficou curioso? Então continua lendo.

Esses arquivos, que popularmente chamamos de ROMs, tem esse nome exatamente porque os jogos, originalmente, eram gravados em chips que tinham esse nome. O chip de ROM ou Read Only Memory, eram escolhidos pelas empresas pelo seu preço e porque não tinha como alguém conseguir acessar os dados contidos nele. Um chip desses só permite ser gravado uma única vez. Depois disso, os dados contidos nele só podem ser lidos. Para gravar nesses chips, são necessários equipamentos caros e que não eram encontrados em qualquer esquina, principalmente nas décadas de 1970 e 1980. Ler os dados dentro deles, por outro lado, é um processo relativamente simples. Uma vez gravados com o jogo, o chip era soldado em uma placa de circuito impresso e acondicionado em um invólucro de plástico dando forma ao que comumente chamados de cartucho.

Os chips de ROM eram, também, muito usados nas máquinas de arcades. O porém é que essas máquinas eram ainda mais complexas. Enquanto um cartucho contem, normalmente, um ou dois chips ROM, um arcade pode ter uma infinidades deles, dependendo da complexidade gráfica e do jogo. Esses chips de ROM eram soldados juntamente com os demais componentes da placa de circuitos do arcade, entretanto, isso podia ter tantas variações que seria impossível listar em um artigo como esse. Se você analisar placas de um mesmo fabricante encontrará variantes de montagem.

Com o avançar do tempo e a chegada de videogames cada vez mais poderosos, os antigos consoles foram sendo esquecidos. Entretanto, a saudade e a nostalgia logo começou a bater à porta dos jogadores, principalmente dos que eram crianças quando tiveram contato com esses, agora, antigos videogames. Só que conseguir um console antigo em uma era pré-internet não era uma tarefa tão simples. Atualmente não é, imagine no inicio da década de 1990. É nessa época que começam a surgir os primeiros emuladores viáveis, graças a popularização dos computadores pessoais, principalmente dos baseados no padrão IBM PC, baseados em chips da Intel. Computadores com os microprocessadores 80286 e 80386 deram um enorme salto na performance dos computadores, possibilitando softwares cada vez mais complexos.
Porém, o emulador só faz sentido se você tiver os jogos. Conectar o velho cartucho a um computador não era – e ainda não é – uma tarefa simples. Nesse ponto, misturando colecionismo, saudosismo, preservação dos jogos e muita vontade de ter acesso mais fácil aos jogos mais antigos, muitos dos quais eram exclusivos dos agora antigos consoles de videogame, grupos de entusiastas começaram a fazer engenharia reversa nos consoles e cartuchos, visando extrair os jogos de seus cartuchos originais e transformá-los em arquivos onde pudessem ser manipulados com mais facilidade. Usando leitores de EPROM ligados a PCs, esse pessoal começou a extrair os jogos desses cartuchos em um processo que é conhecido como DUMP. Muitas vezes era necessário retirar o chip de ROM da placa de circuito do cartucho e desenvolver softwares para fazer esse dump de maneira correta. No caso das placas de arcade o processo era ainda mais demorado e complexo já que a única maneira era retirar os chips das placas dentro de uma ordem correta. Esse processo podia causar danos permanentes nos chips originais, tornando o cartucho e placas de arcade inutilizáveis. Mesmo assim, durante toda a década de 1990 os jogos foram sendo extraídos para esses arquivos.
Havia um outro processo para extrair os jogos das ROMs de cartuchos de videogame. Consoles eram modificados para onde um cabo era adaptado ao videogame e conectado ao computador. Ao ligar o videogame, um software especificamente criado para isso entrava em ação para copiar os dados contidos na ROM do cartucho. Atualmente há equipamentos com diversas conexões de consoles antigos que podem ser conectados a uma simples entrada USB de um computador comum para fazer essa extração do jogo. Já vem até com o software necessário para o processo.


Apesar dos fabricantes de hardware e software para videogames não terem ficado nada felizes com isso, a criação do emulador, em si, não foi considerado pirataria – e olha que Sony, Sega e Nintendo tentaram. A cópia do software também não é pirataria, desde que você tenha comprado o jogo. Você tem direito a ter cópias de segurança desses jogos, mas não pode distribuí-las para mais ninguém e é aí que a coisa desandou. Em uma era em que não havia internet como atualmente, esses entusiastas se reuniam em fóruns eletrônicos chamados BBS. Neles conversavam, trocavam informações técnicas e compartilhavam os jogos extraídos das tais ROMs. Com o tempo, cópias desses jogos também passaram a ser compartilhadas via disquetes flexíveis e CD-ROMs, onde os primeiros gravadores para computadores domésticos começavam a surgir.
Tudo isso andou vagarosamente durante toda a década de 1990. Porém, com a popularização da internet no final dessa década, a coisa explodiu. Os arquivos contendo os jogos rapidamente se espalharam pela internet. Computadores ainda mais potentes e a internet facilitaram o surgimento de novos emuladores que simulavam o hardware dos consoles cada vez mais próximos ao que era originalmente. Atualmente é muito fácil encontrar qualquer jogo com uma simples busca na internet, ainda que, vale ressaltar, seja pirataria se você não for proprietário do jogo original.
Ilegal ou não, o fato é esse processo todo facilitou nosso acesso a jogos que nunca teríamos acesso de outra maneira. Jogos lançados exclusivamente em um determinado país ou versões diferentes desses jogos, modificados devido a legislações ou para agradar um determinado público. Outra tendência que ganhou muita força foi o de grupos que fazem traduções de jogos. Um processo que não é simples, mas é muito facilitada por se ter um arquivo que pode ser manipulado em um computador. Muitos RPGs que só foram lançados no Japão, por exemplo, são acessíveis em diversas línguas atualmente, graças ao trabalho de entusiastas que fazem isso sem nada cobrar. E os arcades, então? Como seria possível jogar a versão arcade Rygar, por exemplo, atualmente? Jogo que foi lançado há uns 40 anos e é inviável para a grande maioria dos jogadores ter acesso a uma máquina de arcade dessas que esteja funcionando em sua plenitude.

Então as software houses e fabricantes de videogame podem reclamar e ter seus ataques de pelanca, mas a emulação veio para ficar sendo que muitos desses jogos só estão disponíveis atualmente graças ao trabalho dessas pessoas que tiveram a paciência de extraí-los de suas placas de circuito originais. Muitos desses jogos tiveram seus códigos fonte perdidos durante os últimos 40 anos em uma miríade de fusões, falências, compra e venda de empresas. Para se ter uma ideia, há jogos, atualmente, que ninguém tem certeza de quem são os donos da marca e personagens. Outros jogos que não fizeram sucesso na época e, por isso mesmo, ficaram presos a uma determinada plataforma de jogos perdida no passado.
Mais recentemente, pessoas tem se organizado e montado operações para preservar todo esse passado, armazenando jogos e tudo o mais relacionado a isso. E muito disso só foi possível graças ao trabalho de cópia desses jogos de suas mídias originais.
