
O avanço do fim das mídias físicas — a Sony anunciou que vai ser 100% digital, abandonando de vez os discos gravados — tem provocado a ira de muitos usuários de jogos e do pessoal preocupado com a preservação deles. O assunto voltou mais uma vez à tona com a Sony oficializando que vai deixar de produzir seus jogos fisicamente com um aviso que agora vem impresso na embalagem dos novos Playstation 5.
Não sejamos hipócritas nem tentemos tapar o sol com peneira. O fim da mídia física para os jogos era questão de tempo. Nos PCs, o advento da Steam praticamente eliminou o uso dos velhos discos ópticos a muito tempo, então era questão de tempo para isso acontecer nos consoles de videogame. A Microsoft não chegou a dizer isso explicitamente, entretanto, o crescimento do Xbox Game Pass já demonstrava que esse era um caminho sem volta.

Mas a gritaria não foi exatamente pelo fim das mídias físicas. O que preocupa muitos, inclusive esse que lhes escreve, é a perda de poder que o usuário tem sobre o jogo que foi comprado. Um jogo lançado hoje, adquirido digitalmente, não é seu. Você tem uma licença de uso desse jogo e só. Se você demorar muito tempo para jogar, tipo uns 3 ou 4 anos, é possível que você não encontre o jogo pelo qual pagou quando decidir jogar. O criador do jogo pode simplesmente retirá-lo do ar e você não vai mais conseguir jogar. Isso também elimina o fator replay. Se você quiser relembrar aquele jogo que marcou a sua infância ou adolescência daqui uns 15 ou 20 anos, existe uma boa chance de que não consiga achá-lo mais.
Graças a galera do preservacionismo, atualmente você consegue jogar até aquele joguinho obscuro que ficava em um canto do fliperama que você costumava frequentar na década de 1980. Isso só foi possível porque o pessoal resgatou equipamentos que existiam fisicamente e fez engenharia reversa neles, mesmo muitos anos depois delas terem sido abandonadas por aí. Porém, como isso será possível com jogos que só existem digitalmente? Se o desenvolvedor deixar de existir e o jogo que ele criou entrar em um limbo jurídico — algo que aconteceu muito no passado com jogos que nunca mais foram relançados — em que os programas fonte ou a marca acabarem nas mãos de alguém que não tenha interesse de relança-lo ou, até mesmo, nem saiba que acabou herdando tal coisa, o jogo vai sumir para sempre. Com a mídia somente digital, esse risco aumenta exponencialmente.
Talvez eu seja só um saudosista vendo o fim de uma era, mas quem viveu a era dos cartuchos com aquele som inconfundível de inseri-lo no seu videogame velho de guerra sabe do que estou falando. Porém a evolução é algo impossível de parar e eu, sinceramente, espero que a mídia digital venha somente para trazer melhorias.
